Carta a Tarcísio Pereira Meu caro Tarcísio Pereira, por indicação sua, fiz uma visita ao Panteão Nacional de Lisboa , instituição mon...

Falta alguém no Panteão

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Carta a Tarcísio Pereira

Meu caro Tarcísio Pereira, por indicação sua, fiz uma visita ao Panteão Nacional de Lisboa, instituição monumental cuja existência, confesso, ignorava completamente. Conhecia o Pantheon romano, erigido por Marco Agripa, general de Augusto, e o Panthéon francês, em Paris, construído para ser o templo da República, cujo braço forte era a poderosa Convenção Nacional, consequência da Revolução Francesa.

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Roma
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Paris

A diferença entre eles, como você bem sabe, Tarcísio, é que o primeiro, com inspiração grega, tem a sua função explicitada pelo seu, cujo significado é “em que se encontram todos os deuses” (πάνθεων), obviamente, com o nome “templo” implícito. Os outros dois, o francês e o lusitano, destinam-se a abrigar os heróis da pátria, conforme está explicitado no frontispício do edifício parisiense, no final da Rue Soufflot:

Aos grandes homens, a pátria reconhecida.
M. Kirkgoz
No Panteão Nacional de Lisboa, Tarcísio, fica mais evidente a semelhança do círculo principal, na entrada, com o Panthéon francês, sem o “Pêndulo de Foucault”, a nos dar a prova incontestável de que a Terra gira em torno de seu próprio eixo. Edifício magnífico, mais ainda em processo de aprimoramento, com relação aos grandes homens e mulheres que fizeram e fazem a nação portuguesa. Claro, meu amigo, não se pode esperar que um monumento criado por decreto em 1866 e situado, a partir de 1966, na Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa, tenha conseguido trasladar para as suas dependências a tradição portuguesa.
Panteão ▪ Lisboa
Não que lhe faltem pessoas ilustres e merecedoras dessa honraria a fixar a sua memória. Faltaram, talvez, recursos, como sempre faltam para o que é importante no desenvolvimento da cultura e na sua preservação na memória nacional. Nós, no Brasil, sofremos na pele essa chaga, que está longe de sarar, como o amigo bem conhece.

Você conhece bem o espaço, Tarcísio, mas não custa lembrar que ali se encontram Pedro Álvares Cabral, que abriu as portas do Ocidente para Portugal; Nuno Álvares Pereira, o grande herói da pátria portuguesa, apoiador de D. João, o Mestre de Avis, a ocupar o trono português, após a morte de D. Fernando, o fraco – “um fraco rei faz fraca a forte gente”, diz Camões, em Os Lusíadas –, que arriscava ficar nas garras castelhanas, numa espécie de antecipação de 1580. Nuno leva à frente, com unhas e dentes, o apoio ao rei D. João I, e se torna crucial na Batalha de Aljubarrota (1385), determinando, enfim, a independência portuguesa, com relação aos Castelhanos. Camões, cujo cenotáfio também está no Panteão Nacional – o túmulo está no Mosteiro dos Jerônimos – é quem narra, com minúcias o episódio, no Canto IV de Os Lusíadas.

Cenotáfios de Luís de Camões (ESQ) e Pedro Álvares Cábral no Panteão de Lisboa.
O que se fez com relação a Camões, também se fez com Vasco da Gama, simbolicamente presente no chamado túmulo honorário ou “túmulo vazio”, tradução literal de cenotáfio (κενοτάφιον), cujos restos mortais se encontram igualmente nos Jerônimos. Acredito, Tarcísio, que poderia ser feito o mesmo com o imenso Alexandre Herculano, também no famoso mosteiro de Belém. Destaco, ainda, meu amigo, a presença, no Panteão Nacional, da grandiosa poeta Sophia de Mello Brayner Andresen, cujos poemas vivificam a tradição helênica.

Túmulo da poeta Sophia de Mello Brayner Andresen.
Confesso-lhe, no entanto, Tarcísio, que senti falta de alguém. Alguém muito importante. Nem vou falar de Gil Vicente, cuja presença no Panteão deveria ser óbvia, de uma obrigatoriedade incontornável, pois, no meu entendimento, Camões (1524-1580 não aconteceria tão cedo, sem um Gil Vicente (1465-1536) que o precedesse. Basta ver a monumental obra do linguista e lusitanista Paul Teyssier, A língua de Gil Vicente (2005), publicada pela Imprensa Nacional Casa da Moeda de Lisboa. Quem sabe essa injustiça haverá de ser reparada um dia.

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Eça de Queiroz ▪ 1845—1900
Há, no entanto, uma falta não menos importante, no Panteão Nacional. Refiro-me a Eça de Queirós. Entrei no monumento esperando ver o túmulo do autor de Os Maias, com a mesma ansiedade com que pus os pés no Panthéon francês, para saudar o monumental Victor Hugo. Que decepção, meu amigo! A grande instituição para recepção e abrigo dos grandes da pátria está órfã de um dos seus maiores escritores! Assim como Hugo, Eça atravessa o tempo, superando as amarras das convenções limitadoras das chamadas escolas literárias. Do mesmo modo que Hugo, em Os Miseráveis, Eça escreve definitivamente seu nome nas letras universais com A Ilustre casa de Ramires.

E, a rigor, nem precisaria vir à luz A ilustre casa de Ramires (1900). Que maravilha ele ter sido produzido, ainda que publicado postumamente! Trata-se, Tarcísio, de um dos maiores romances da Literatura de Língua Portuguesa, extremamente moderno na construção e na essência, ainda, e por isto mesmo, que trate do doentio apego do ocioso Gonçalo Mendes Ramires à sua ascendência milenar nobre e guerreira, mas sem conseguir a vergonhosa decadência em que afunda.

Se tivesse Eça ficado em A relíquia (1887), já teríamos um bom exemplo de sua evolução como escritor, tão distante do naturalismo de carteirinha de O crime do Padre Amaro (1875) ou de O primo Basílio (1878).
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M. Marques Jr
A relíquia é um desses romances que justificam o título com o sentido sagrado que a Igreja tem para o nome, de que Eça resgata o significado primeiro de “restos”, “do que foi deixado”, sentido que fica no interdito, graças à “corrosiva ironia queirosiana”, como acentua o professor e crítico Carlos Reis, a que eu acrescentaria o profundo cinismo. Tenho a grata satisfação, meu amigo, de ter encontrado na Imprensa Nacional Casa da Moeda um exemplar desse romance, a um preço módico de 5 Euros, uma bagatela, mesmo com o preço da moeda europeia pesando no nosso bolso. Ressalto que não se trata de uma edição qualquer, mas de um dos volumes da gigantesca empresa de edição crítica das obras de Eça de Queirós, capitaneada pelo trabalho incansável do já citado crítico Carlos Reis.

Intrigado com a ausência de Eça de Queirós no Panteão Nacional, procurei me inteirar, meu amigo, sobre a razão. Soube, Tarcísio, que alguns descendentes de Eça de Queirós, embargaram na Justiça o traslado dos seus restos mortais para o Panteão, quando tudo estava preparado para acontecer. Há, no entanto, uma notícia alvissareira, meu amigo: uma decisão de 2023, do Supremo Tribunal Administrativo, anulando o embargo e autorizando a instalação do seu túmulo naquele templo. Não há, ainda, uma data, para que a solenidade ocorra, mas espero que possa, em breve, acontecer.

Círculo Central do Panteão Nacional de Lisboa.
No mais, meu caro amigo, agradeço a indicação de visita ao Panteão Nacional, que me deu a oportunidade de falar um pouco desse autor monumental, que precisa ser recolocado no circuito das leituras obrigatórias, para a formação de um conhecimento mais sólido da nossa tão vilipendiada Língua Portuguesa. Veja-se, Tarcísio, que todo o Portugal está a comemorar, com uma programação monumental, os 500 anos de nascimento de Camões, cujo aniversário aconteceu no dia 23 de janeiro. Não sei de algo semelhante, uma nota sequer que tenha sido lançada da parte dos responsáveis pelos órgãos culturais públicos e/ou privados, ou de algum evento que esteja sendo preparado para o dia 10 de junho, dia da morte do poeta. Decididamente, as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá/aí. Há, além de um oceano, um abismo profundo entre o canto mavioso, que cá se ouve todos os dias, e o silêncio que reina na maior população de falantes da Língua Portuguesa em um único país, meu amigo.

Desta Coimbra chuvosa e ainda fria, “cidade graciosa onde dormita Minerva”, como disse Eça de Queirós, terra onde Camões viveu, estudou, amou e eternizou no episódio de Inês de Castro, envio-lhe, meu amigo, um grande e saudoso abraço.

Milton Marques Junior

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  1. A leitura da Carta de Milton é de grosso prazer, levando-nos a um passeio inesquecível pela literatura de autores supervisores de nossa língua.

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  2. Bravíssimo, Milton. O velho Eça não pode faltar no Panteão português. Parabéns. Francisco Gil Messias.

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